Cetamina: Substância usada até então como anestésico revela-se um importante aliado contra a depressão


Doença que afeta quase 40 milhões de brasileiros, a depressão é um problema altamente complexo, já que impacta em diversos sistemas cerebrais e em outros órgãos do corpo humano. Por isso, em grande parte dos casos, a depressão vem acompanhada de outras complicações, que vão de insônia a doenças cardiovasculares, entre outras.

A depressão é a doença psiquiátrica mais comum em todo o mundo, afetando quase 20% da população mundial- o que equivale a 1,4 bilhão de pessoas, das quais 38,8 milhões somente no Brasil. Apesar dos avanços na medicina, aproximadamente 40% dos pacientes que sofrem de depressão não encontram alívio com os recursos existentes até então.

Porém, uma substância que até então era utilizada como anestésico em pequenas cirurgias em seres humanos e em animais, a cetamina, revelou ser um potente antidepressivo e passou a ser usada ainda em caráter experimental, sendo considerada em um artigo recente publicado na revista científica Science, como a descoberta mais decisiva para o tratamento da depressão em meio século.

Desenvolvida na década de 60 do século XX para tratar dos soldados norte-americanos feridos na Guerra do Vietnã, a cetamina era utilizada até então como anestesia para pequenas cirurgias tanto em seres humanos como em animais. Porém, no início dos anos 2000, especialistas descobriram as propriedades antidepressivas da cetamina, em especial pelo seu efeito rápido, que surge aproximadamente 40 minutos após sua aplicação.

Assim como em todos os antidepressivos, a cetamina atua no hipocampo e no córtex pré-frontal, regiões do cérebro que se associam ao humor, ao aprendizado e a memória. Além disso, a substância atua no córtex cingulado anterior, explicando a rápida ação do medicamento.

A cetamina é indicada para pacientes que não respondem aos tratamentos antidepressivos tradicionais, o que representa de 30% a 40% de todos os doentes. Estudos apontam que 70% dos depressivos que se submeteram ao tratamento com a cetamina apresentaram melhoras significativas já nas primeiras horas após a aplicação do medicamento.

Importante ressaltar de que os efeitos da cetamina como antidepressivo têm curta duração: apenas duas semanas, o que faz com que o paciente necessite de novas aplicações após esse período ou prosseguir no tratamento usando outro antidepressivo.

Importante ressaltar de que a cetamina oferece alguns efeitos colaterais: aproximadamente 10% a 15% dos pacientes costumam ficar com uma percepção distorcida do tempo e espaço- mas que não são parecidas com às viagens alucinógenas que decorrem com a cetamina em pó, que é usada como droga recreativa, sendo que as reações adversas com o medicamento costumam surgir em torno dos primeiros 15 minutos após a sua aplicação.

Por ter curta duração, além de ser de difícil administração- já que a cetamina somente é administrada por injeção endovenosa, em ambiente hospitalar, durante 40 minutos, com o acompanhamento de um anestesista- ainda existe um longo caminho a ser percorrido até que a substância possa deixar de ser um remédio experimental e passe a ser comercializada para combater a depressão em larga escala.

Vale lembrar de que a depressão costuma impor um tratamento adequado caso a caso, já que ela se modifica de acordo com a biologia e as experiências emocionais de cada indivíduo. Por isso, contar com tratamento e acompanhamento profissional é fundamental para combater um dos maiores males do século XXI.